O Curso

Vou me fixar a partir do movimento modernista, da emergência das primeiras manifestações organizadas da classe operária, do surgimento de uma obra que assinala, talvez, o nascimento das ciências sociais no Brasil: refiro-me à “Populações Meridionais do Brasil” (1922), de Oliveira Viana. E, como disse anteriormente, vou voltar-me para o espaço familiar e particular dos jovens quando declaram que vão estudar ciências sociais. É um Deus-nos-acuda danado.  Há alguns anos, via de regra, as famílias reagiam muito mal a isso. Como? Não optar por direito, medicina, engenharia, as alternativas clássicas do reconhecimento social? No presente, a reação é um pouco mais branda, mas ainda assim mal humorada. Ciências sociais sugeriam, e ainda sugerem, um certo far niente, um ócio e diletantismo inadmissível para acumular fortuna e fazer frente às necessidades da vida. Desde os primeiros momentos, o estudante secundarista que fala em cursar ciências sociais recebe um olhar de esguelha e desaprovação de seus pais e parentes mais próximos. Constitui-se logo num objeto de curiosidade e observação da família, quando não declarado de imediato insensato, louco ou assemelhado.

Para que têm servido as ciências sociais entre nós, isto é, no Brasil, neste microcosmo familiar da casa, projetada para fazer valer voz e voto na cena política da rua? Melhor caracterizada a indagação, segue a resposta: As ciências sociais têm servido para constituir o lugar e o papel do alegria da casa, também designado como louco da casa, ora num sentido pejorativo, ora num outro, de “louco manso” assentado no imaginário, na utopia e até na alucinação, tão bem referidas nos “Diários de Motocicleta”, do cineasta Walter Moreira Salles Jr, sobre a vida do Che, ainda antes da opção pela luta política e embora ele não fosse estudante de ciências sociais, mas, vejam vocês, de medicina … A exceção confirma a regra.

O estudante de ciências sociais, na nossa Latinoamérica, não é freqüentemente visto por esta lente que o rotula como “imaginativo”, “que vive da e na imaginação”, “poeta”, no sentido de fantasista, fantasioso, “viajante”, etc., etc.? Talvez pudéssemos indagar acerca das vantagens de sermos tudo isto numa sociedade midiática e performática onde cada vez mais o meio é a mensagem. Qual o lugar do sonho e da fantasia? Tanto no nosso cotidiano, quanto realidade social propriamente dita?

Aqui pensamos que o dualismo entre interior/exterior, universal/particular é ultrapassado, num sentido que eu diria spinozista, por Mário e seus companheiros. Será a língua sempre exterior ao nosso eu mais profundo? Ou o problema da expressão autêntica, genuína e singular (da identidade, enfim) ganha contornos sociais precisos, o que leva à particularização circunstanciada e histórico-conjuntural? Para Mário o problema universal ganha peso local e, se é mediatizado por condições de espaço e de tempo, deve ser considerado numa dada situação, relações de força ou circunstância histórica; tudo isto junto significa dizer que na atualidade do pósmodernismo a questão da identidade nacional é midiatizada, ou seja, mediatizada pela mídia. Em função do passado colonial e escravista, a crise de identidade é dupla; sendo um problema “identificar a identidade, de certo modo programá-la e criá-la, já que, por sua crise universal e local, estamos impossibilitados de sermos espontâneos espontaneamente”. Mario, que se interessa pela violência e o autoritarismo da escravidão se interessa também pela relação dos brasileiros com o paternalismo, com o favor, mais ainda com a autonomia, a autenticidade, a sinceridade, a transparência. Aqui estamos no centro de complexos dilaceramentos, ambivalências e conflitos de ordem moral, ética e estética, ainda não resolvidos na sociedade brasileira e freqüentemente apresentados pelos estudantes e estudiosos das ciências sociais no Brasil. Daí o sentido de sermos, cada um de nós, o louco da casa.

A isso tem servido as ciências sociais no Brasil. Elas têm oferecido as chances concretas para que algumas centenas de jovens estudantes, homens e mulheres, tenham efetivamente a possibilidade da evasão, a experiência da imaginação vivida como loucura, como falta, como deslize, como caminhada “fora dos trilhos”, ainda que temerosos de um desastre qualquer …

Evidentemente que uma tal resposta não esgota a totalidade dos serviços que as ciências sociais têm prestado, em especial no Brasil. Mas eu renuncio já a qualquer pretensão de completude e digo, convocando todos à imaginação sociológica, como nos falava Wright Mills, se as ciências sociais tem servido para a constituição do louco da casa é porque elas mesmas – ciências sociais – tem sido uma “casa de loucos”.

Louca da casa, alegria da casa, tomadas como metáforas para a imaginação, para o imaginário, que entranhado no simbólico mais resistente e relutante vai forjando não apenas a realidade, mas em particular o real do qual nos fala Jacques Lacan; este real que não se confunde com a realidade, todavia, cravado no imaginário, vive pulsante e liberto no impossível do desejo, na falta nunca preenchida.

Não se trata apenas de um mero jogo de palavras; se as ciências sociais têm servido para uma espécie de fuga e escape para o imaginário é porque elas próprias têm servido como uma espécie de abrigo ou casa para o mesmo imaginário. Por isso é que fica bem uma tal correspondência aparentemente esdrúxula ou paroxística para quem pensa a ciência no marco do paradigma racionalista e iluminista.

 

Fonte: Para quê têm servido as Ciências Sociais? – Cerqueira Filho.

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